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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arco-íris


                                                                                         
         
                                                                                         
                                                              
    Como o pintor que abusa das cores
para delas extrair sua alma,
o poeta se vale da pena 
para dividir sua dor com o leitor,
o amante silente
sente que a musa  adorada 
necessita de ser amada,
com toda a delicadeza e intensidade,
que emanam de seu coração... 

                                Dantes 
                                                                                                                                                        

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Piramar

piranha
      sacana
               nua
                  na cama

me chama 
           me nega,
                     renega...

      ama!
Dantes

Posse

Se quiser vir,
que seja sem tempo,
deixe-se guiar pelo desejo,
oculte de dentro de si este medo
que você teima em ter, de me pertencer por inteiro...
Dantes

terça-feira, 14 de junho de 2011

Seta



A felicidade
é incerta
tanto quanto 
a flecha
que vai de encontro
ao alvo
e descamba perdida
no fundo
do 
lago 

                 Dantes

 

Labuta


Custa caro ser livre,
mais caro ainda não se dividir,

ou permitir que comprem seu pensar e seu sentir...
Muitos vendem a alma

a troco de tralhas, migalhas, souvenirs...
e mitigam a dor como labura, asfixiando o porvir...
Dantes


Fellini



Quando relembro as imagens de um filme dirigido pelo Fellini, viajo além do tempo, e reencontro o menino que fui um dia.  Impossível desplugar minha infância do cinema desse italiano nascido na cidade de Rimini, em 1920. 

Minha família, meus amigos, vizinhos, a igreja, o clube, os loucos... Todos os personagens e as situações, do Amarcord, eram (são?) presentes no meu cotidiano.  É, eu fui um garoto impresionável, idêntico ao Titta. Tal como ele, criei um mundo todo meu, para manter a sanidade, diante de um mundo caótico. 

Constantemente me pergunto por que as pessoas perdem com o passar do tempo, a capacidade de verem cavalos verdes, de sentir pena do tio louco que apedreja a toda a família e clama por uma mulher, de rirem das desventuras, das peças e artimanhas que a vida nos prega? O inesperado é o que ocorre sempre nas nossas vidas, ninguém esta imune de ser tragado pelas ondas do destino. 

E sempre bom ter em conta, que nas horas mais loucas, haverá uma freira anã, montada num cavalo verde, estendendo sua mão para que desçamos da árvore, e voltemos a nossa idílica Rimini.
Dantes


sábado, 8 de janeiro de 2011

Porta-malas

Vivemos um era da total brutalização do homem e do que é a humanidade. Conceitos e fundamentos que já foram muito caros as gerações anteriores, estão sendo mastigados e escarrados na nossa cara a todo momento. Ser o que se é, nada representa diante do ter, da ostentação, e da aparência,  que a vida moderna cobra de todos.

Quando uma psicóloga que estava desaparecida há três dias, é encontrada dentro de um porta-malas de um carro , ao invés de tentar compreender o porquê dela ter surtado, de ter chegado a esse extremo, o que ouço, leio, e vejo, são piadinhas despidas de todo e qualquer sentido. O mesmo se deu quando um grupo de brutamontes tocou fogo num Índio em Brasilia. Ou quando gays são espancados simplesmente por serem gays. Ninguém liga para a dor, ou a perda do outro. É cada um por si, e pelos seus, quando muito.

Nunca antes viveu-se tão rodeado de gente, e nunca foi tão solitário. Adestrados pelo sistema, assistimos a vida passar veloz como um videoclipe, sem reflexão alguma, sem sentido algum. Máquinas e não homens, é o que somos. Educamos nossos filhos para serem os "number ones" os fodões, e não cidadãos capazes de ver no próximo uma extensão de si mesmo. Precisamos dar um choque de cidadania, de igualdade, de civilidade, em nós e nas novas gerações., Para que ao fim da vida, não tenha sido tudo um enorme e estúpido vazio. 
Dantes



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

speculum

Houve uma época em que eu pensava que o mundo todo era minúsculo feito um grão de areia, e que um dia iria desbravar todos os seus quadrantes. Travaria batalhas homéricas contra todas as espécies de monstros, fossem eles, marinhos, alados, terrenos ou celestiais. Desnudaria todas as ninfas, princesas, rainhas, deusas, que encontrasse pelo caminho. Seria amado por elas e idealizado como um deus. 

Assim, supondo-me um deus, cresci. Inabalável, como um titã, aguardando o instante do embate. O confronto de fato veio ao meu encontro, não da maneira que eu ansiava, e sim nas duras verdades que a vida nos brinda. O mundo dos sonhos teve de ficar guardado no fundo do bolso, e tive de encarar a realidade concreta, de me saber pequeno e só, num universo infindo e inalcançável.

Quando mirei no espelho e aprofundei o olhar, reparei naquele homem que era até ali me fora um completo estranho.  Olhei dentro de seus olhos e mergulhei na sua melancolia, na sua perplexidade diante do real. Ver a vida como ela é, gela as entranhas, e faz o corpo todo estremecer.  Estremeci.
Dantes
 Teria de principiar por ali, uma nova história, reescrever um novo destino, reerguer tudo o que eu havia posto por terra. Não é simples zerar sua vida, sair do nada, nada saber, nada possuir, além de um punhado suposições e conjecturas. Renascer para a vida é doloroso, e necessário.  Perdoar a si, e pedir perdão a quem de alguma forma ferimos, na longa travessia do sonho para a realidade, é o mais singelo e também o mais significativo dos gestos para a libertação interior. 

Estou principiando a me perdoar, e sei que a batalha será longa e árdua, que haverá quedas, e rupturas externas e internas, terei momentos de luz e outros de trevas. Até lá, seguirei tocando em frente, sem presas, sem rumos, sem fadigas, sem medos. Vivendo!



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Orgasmo Total

Na eterna busca do orgasmo total, homens e mulheres dividem seus corpos, suas almas, seus mais profundos segredos, com completos estranhos.  Não há mais a necessidade de compartilhar a casa, a cama, os medos, as dúvidas. Tudo se resume a buscar o êxtase momentâneo, que quase nunca é alcançado. E que,  quando o é , traz mais incertezas do que prazer.

A intimidade deu lugar a permissividade, o amor foi subjugado pelo hedonismo, o afeto asfixiado pela indiferença. Muitas vezes se sai da alcova (outras tantas nem é preciso), com um profundo e imenso vazio. Um vazio que brota das entranhas da alma, que grita, que dilacera, que corta e fere na carne. E sangra, sangra sem parar, um sangue invisível, que não pode ser visto, mas que teima em não parar de correr.

As feridas estão ali, claras nítidas e qualquer pessoa mais atenta, facilmente repara nelas. Menos o cumplice/parceiro da transa ocasional, ele é incapaz de ver além de si mesmo. Pra ele quem está ali deitado a seu lado, é apenas um objeto, um fetiche, um símbolo de sua capacidade de sedução, e ardil. É tão invisível, quanto são os móveis de um quarto de motel. Estão ali, mas após sair de dentro dele, é como se nunca tivessem existido.

Na saída um beijo... um te ligo...um pra cada lado...

E uma lágrima que teima em correr no canto do olho...
Dantes

Les liaisons dangereuses

Em 1782 veio a baila um dos maiores pilares da literatura mundial, um livro ácido e profundamente revelador. Seu autor (Choderlos de Laclos), desnudou profundamente as convenções sociais de seu tempo, mostrando de forma tácita até que ponto pode chegar a vaidade humana.

Os personagens são aristocratas que entediados com a sua existência, trocam cartas entre si, tentando destruir e ou arruinar a reputação de seus pares. O Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, dedicam-se com um ardor selvagem a manipular e humilhar seus desafetos. Usam a intriga e o jogo de sedução como arma de destruição.

Hoje não existem mais os salões, muito menos a aristrocacia. Mas existe a net, e muitos tentam recriar aqui o mundo descrito pelo Laclos. Não usam mais os mensageiros e suas belas carruagens, sua vida foi facilitada pelo uso do msn, e-mails, depoimento, telefone...

Dantes